quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobre Eu Ainda Pensar Como Um Metodista

    


    O texto abaixo é do pastor metodista Craig L. Adams. O pr. Adams é um metodistas conservador da United Methodist Church e tem um site, com o seu nome, onde explora a teologia wesleyana. Pode ser encontrado na sessão Commonplace Holiness. Boa leitura.
 

    Na primeira parte de seu livro publicado em 2012 chamado Como Deus Tornou-se Rei: A História Esquecida dos Evangelhos, N. T. Wright comenta sobre como a Igreja nem sempre se permitiu ouvir o pleno testemunho dos Evangelhos sobre Cristo. Eu não vou tentar reproduzir o argumento aqui; sugiro que leia o livro.

    Wright começa por discutir algumas maneiras que os ensinos da Igreja involuntariamente perderam o rumo. E, como ele está discutindo como vários teólogos do passado tentaram defender a ortodoxia de alguns ensinos mal interpretados da Bíblia, ele diz, na página 37, que "o século XVIII viu grandes movimentos de avivamento, em particular através do movimento metodista legado por John e Charles Wesley e George Whitefield ", e ele continua a dizer.:

Sua teologia e sua compreensão dos evangelhos são bastante diferentes dos temas sobre os quais eu não estou qualificado para falar. Mas eu suspeito que a ênfase de Wesley na experiência cristã, tanto a experiência "espiritual" de conhecer o amor de Deus no próprio coração e vida e da experiência "prática" de viver uma vida santa por si mesmo e de trabalhar pela justiça de Deus no mundo, poderia muito bem ser citada como evidência de um movimento no qual partes da igreja chegaram a integrar vários elementos nos evangelhos, uma síntese que a maioria do cristianismo ocidental tem permitido desmoronar.¹

    O movimento wesleyano, em seu início, abraçou em conjunto um desafio para uma vida verdadeiramente transformada por meio da fé, e um compromisso para ver os valores do Reino de Deus implementados na terra. "... Venha o teu reino, tua vontade, assim na terra como no céu".

    Conheço pessoas que foram levantadas nos ramos mais rigorosos, mais legalistas do movimento wesleyano de santidade, que aprenderam a se ressentir. Eu entendo. Mas isso não tem sido a minha experiência.

    Sou grato por ter ouvido o Evangelho entre um grupo de pessoas que acreditavam que a fé em Cristo faz uma verdadeira mudança observável na vida de uma pessoa. Sou grato por uma comunidade de fé que acredita que a mudança moral e espiritual é possível. Sou grato por uma comunidade de fé por ter falado de uma fé que poderia ser experimentada. Sou grato por uma comunidade de fé que acredita que o Evangelho tanto poderia mudar as pessoas e mudar a sociedade.

    No início da minha vida cristã eu comecei a ler os escritos de Adam Clarke e John Wesley. Isto teve um efeito poderoso sobre como eu interpreto as Escrituras nos dias de hoje - e eu sou grato pelas percepções dos primeiros metodistas sobre o significado das Escrituras.

    Então, eu aprecio a chamada de atenção de Wright para a síntese wesleyana originais.

    Mesmo agora, enquanto eu me sinto profundamente alienado a partir das estruturas institucionais da Igreja Metodista Unida, eu ainda me sinto atraído pela síntese metodista original da fé e da vida, e da compaixão e justiça. Wesley conseguiu isso, aprendendo com a Bíblia, e tanto com a Reforma (com a sua ênfase na justificação pela fé) e com a tradição mística católica romana (com sua ênfase na perfeição cristã). Wesley argumentou que, se a justificação (nosso relacionamento com Deus) foi pela fé, bem, então, a santificação (nossa conformidade com o caráter de Cristo) deve ser pela fé também. Isso levou a uma ênfase no poder do Espírito Santo, ao invés de uma ênfase sobre os esforços morais e empenho. E, se Deus pode mudar as pessoas (por mais difícil que seja o trabalho) por que não esperamos que Deus mude o mundo?

    Isso não quer dizer que tudo o que John Wesley disse é correto. Esse não é o ponto. Longe disso. Wesley apontou em uma direção que eu continuo achando interessante e desafiador para seguir.

    Mas, no entanto, quanto às suas observações iniciais, Wright rapidamente acrescenta:

Mesmo dentro do próprio metodismo, no entanto, eu não percebo os finos instintos deixados pelos primeiros líderes de uma compreensão integrada e enriquecida, a longo prazo, de textos centrais da igreja, os Evangelhos.²
    Na verdade, isso não aconteceu. E o entusiasmo espiritual e intelectual inicial dos irmãos Wesley, Fletcher, Whitefield, Clarke e Watson não se manteve nas gerações que se seguiram. Parte do movimento tendia para a ênfase da experiência emocional minimizando o intelecto - e outra parte abraçou a tradição teológica iniciada por Friedrich Schleiermacher [o liberalismo teológico]. Não só não houve "má compreensão integrada e enriquecida, a longo prazo... [d]os evangelhos." - como também a síntese original se desfez.

    Mas aqui está a questão. Eu ainda acredito em um aqui-e-agora do Evangelho que transforma as pessoas para melhor e impacta o mundo para melhor.

    Então, nesse sentido, sim, eu realmente ainda penso como um metodista.

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Notas

¹ N. T. Wright, How God Became King: The Forgotten Story of the Gospels [Como Deus Tornou-rei: A História Esquecida dos Evangelhos](HarperOne 2012) página 37.

² Ibid


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Pentecostais e a Doutrina Wesleyana da Perfeição Cristã



                          


   A doutrina da perfeição cristã não é uma característica somente das igrejas de tradição wesleyana, como a Metodista, Metodista Livre, Igreja do Nazareno, Exército de Salvação, Igreja Holiness e outras. Esta doutrina teve guarida entre os pentecostais também. É um fato que, infelizmente, muitos irmãos pentecostais desconhecem.

     Os pais do pentecostalismo, Charles Fox Parham e William Seymour, eram de tradição wesleyana e criam na perfeição cristã (veja outros posts deste blog sobre esta doutrina), pois eram membros das igrejas do Movimento Wesleyano de Santidade que teve início em meados do século XIX. Infelizmente, embora os pais do pentecostalismo cressem nesta doutrina, a maior denominação pentecostal não só do Brasil, mas do mundo, Assembleia de Deus, não preservou a crença na perfeição cristã. Preferiram seguir a doutrina da obra consumada da graça (doutrina oposta a da perfeição cristã) de William Durham.

     A maior igreja pentecostal dos Estados Unidos, entretanto, é a Church of God in Christ (COGIC), ou seja, a Igreja de Deus em Cristo, que crê na perfeição cristã. Nos Estados Unidos a Assembly of God, que é a Assembleia de Deus, possui em torno de 3 milhões de membros, enquanto que a Igreja de Deus em Cristo possui em torno de 5 milhões de membros.

     Como os pentecostais wesleyanos (os que creem na doutrina da perfeição cristã) creem nesta doutrina?

     Os wesleyanos creem que depois da conversão, sendo logo, pouco tempo depois ou um tempo depois, aqueles que buscam a santidade e o viver santo seriam inteiramente santificados, sendo isto o alcance da perfeição cristã (enfatizo que não quer dizer que a pessoa torna-se impecável), a conhecida segunda obra da graça, obra esta depois da primeira obra da graça, que é a conversão. Já os pentecostais wesleyanos creem na terceira obra da graça, que é o batismo com/no Espírito Santo, que acontece depois da primeira (conversão) e segunda (inteira santificação) obras da graça.

     Graça e Paz


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Livros Sobre a Teologia de John Wesley

      Abaixo, indicamos livros sobre a teologia de John Wesley especificamente. Em inglês há vários livros sobre a teologia de Wesley. Infelizmente, há pouquíssimos disponíveis em português. Com a graça de Deus, esperamos que mude. Três livros são destacados abaixo. Posteriormente, a editora Sal Cultural publicará o livro Teologia de John Wesley de Mateo Lelievre e a Editeo publicará o livro Graça Responsiva - Teologia Pŕatica de John Wesley de Randy Maddox.

Teologia de John Wesley de Kenneth Collins pela CPAD

                                                   

      Este livro aborda muito detalhadamente os vários pontos da teologia de John Wesley. Sistematizações como cristologia, soteriologia, escatologia, eclesiologia e outros são abordados neste livro. Collins fez um trabalho minucioso sobre a teologia de Wesley.


A Nova Criação - A Teologia de John Wesley Hoje de Theodore Runyon pela Editeo

                                                  

      Tunyon aborda a teologia de Wesley de uma forma menos sistematizada como Collins, entretanto se atém mais profundamente com a relevância da contemporaneidade dos pensamentos de Wesley para os dias de hoje, O entendimento das divisões da imagem de Deus no ser humano e da graça divina são enfatizados neste livro.


Coletânea da Teologia de John Wesley de Robert Burtner e Robert Chiles pela Imprensa Metodista

                                                   

      Burtner e Chiles não se aprofundam comentando a teologia de Wesley. Nesta obra, eles praticamente transcrevem enxertos de escritos de Wesley sobre variados temas sistematizantes como Deus, Jesus, Espírito Santo, Salvação e outros. Entretanto, o livro vale a pena por apresentar Wesley falando por si mesmo. Este livro não é mais publicado, haja vista a editora, Imprensa Metodista, há anos que fechou as portas. Contudo, a Igreja Metodista em Vila Isabel disponibiliza o livro digitalizado gratuitamente.

Graça e Paz

terça-feira, 18 de agosto de 2015

John Wesley e a Doutrina da Perfeição Cristã

Antes de tudo, gostaria de salientar que é necessário, para uma melhor compreensão da perfeição cristã, no entendimento de John Wesley ler os sermões 40 (Perfeição Cristã), 41 (Os Pensamentos Errantes) e o livro Explicação Clara da Perfeição Cristã. Todos os e-books gratuitos estão no site da Metodista de Vila Isabel.

Sobre a doutrina, Wesley menciona o que não significa perfeição cristã. Não significa que se possa ficar isento de ignorância, ou seja, a pessoa perfeita não conhecerá os desígnios de Deus por completo. Isso não se dará. Não significa que conhecerá o Senhor perfeitamente e que saberá de detalhes quanto à Sua vinda e afins. Perfeição, conforme esta doutrina, não implica em impecabilidade, mas sim, como será mostrado, que o pecado voluntário não faz parte do nascido de novo que alcançou a perfeição.

O erro se faz presente na pessoa perfeita (por mais que pareça contraditório). Wesley cita que "conhecemos em parte" (1 Co 13:9), logo, podemos errar na outra parte que não conhecemos. Wesley assevera: "Mas, em coisas não essenciais à salvação, erram, e erram frequentemente" (Sermão 40, parte 1, ponto 4). Os que alcançaram a perfeição não possuem a interpretação correta de todas as passagens das Escrituras e não estão livres de fraquezas não morais como morosidade de entendimento, obtsusidade ou confusão de compreensão, incoerência de pensamento e afins (Sermão 40, parte 1, ponto 7). Muito menos há uma libertação das tentações.

Sobre o que é perfeição cristã, Wesley aborda que os justificados têm o seu velho homem crucificado, seu corpo do pecado destruídos (Rm 6:6) e estão mortos para o pecado (Rm 6:11). Wesley enfatiza que temos que levar em conta seriamente esses versos. Efésios 4:13, Lucas 6:40, Fp 3:15 abordam que somos perfeitos. Jesus, em Mateus 5:48, ordena que sejamos perfeitos como o Pai é perfeito.

Sobre Mateus 11:11: " Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele", Wesley entende que até João Batista, ou seja, até o surgimento da Graça, o menor cristão é maior que João Batista. Já, entre os judeus, João Batista foi o maior. Qualquer cristão que viva no período da Graça é maior que João Batista, o maior do período pré-Graça. 

Sobre Salomão ter escrito que não há homem que não peque (1 Re 8:46; 2 Cr 6:36), Wesley entende, como acima, que, no período da Lei, não havia homem que não pecasse, pois a Graça de Cristo não havia surgido na Terra. 

Sobre Paulo (no caso da discussão com Barnabé) e Pedro (no caso de sua dissimulação em Gálatas), não há indício escriturístico de que eles pecaram necessariamente. Eles pecaram, sem dúvida, mas não seguiram pecando, pois entrariam em contradição com João em 1 Jo 5:18. 

Wesley enfatiza que Cristo nos purifica de todo pecado, conforme 1 João 1:7. Logo, não há um pecado não purificado. Wesley enfatiza que "um cristão é perfeito ao ponto de não cometer pecado" (Sermão 40, parte 2, ponto 20).

Por fim, Wesley assevera que Jesus não teve e não tem pensamentos maus. Então, como Jesus mesmo disse que "todo que é perfeito é como seu Senhor" (Lc 6:40), 1. Somos perfeitos. 2. Somos como o Senhor, logo. 3. Não devemos ter pensamentos maus. 

Wesley, e todos os crentes na perfeição cristã, deleitam-se nesta doutrina porque nos estimula à santidade. Não há espaços para legalismos, pois Wesley e os wesleyanos seguem o princípio moral da santidade, e não o aspecto regimental de culturas.

Em Cristo,

Marlon Marques

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Doutrina da Inteira Santificação na Igreja Antiga





Artigo escrito por Matt O'Reilly

Eu já ouvi muitas vezes que a ênfase que John Wesley fez sobre a inteira santificação (ou perfeição cristã), não foi somente o resultado de sua leitura das Escrituras (foi sim!), mas de sua leitura dos pais da Igreja primitiva também. Eu não tive oportunidade de pesquisar o que foi discorrido em detalhes, mas eu me lembre de que ontem, quando eu estava lendo a Carta de Policarpo aos Filipenses e descobri uma frase que soou como se o fragmento de um sermão de John Wesley. Aqui está o que o bispo de Esmirna do segundo século escreveu: "Pois se alguém estiver nesse grupo, ele cumpriu toda a justiça, pois quem tem amor está longe de todo o pecado" (III: 3, ênfase adicionada). O grupo de de que ele fala são aqueles que têm fé e amor a Deus, Cristo, e ao próximo, e ao próximo, e esse grupo, diz Policarpo, está longe de todo o pecado, não a maioria, todo.

Há um sem número de passagens por Wesley em que foi possível encontrar temas similares; esta citação de Uma Explanação sobre a Perfeição Cristã resume muito bem: "A perfeição cristã é o amor a Deus e ao próximo, o que implica a libertação de todo pecado" (18). Há pelo menos três observações a serem feitas por estamos a comparar Policarpo e Wesley.

Primeiro, e mais óbvio, talvez, é que tanto Policarpo e Wesley estão felizes para descrever a libertação do crente do pecado em termos de "todo o pecado". Ambos, é claro, obtêm isso de 1 João 1:7: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado".

Em segundo lugar, ambos, Policarpo e Wesley, entendem o amor e o pecado como mutuamente excludentes. Um coração cheio de amor a Deus e ao próximo não pode, portanto, ser um um coração em pecado contra Deus ou ao próximo. Se estivermos amando e ativamente seguindo a Cristo, então, ao mesmo tempo, não pecamos contra Ele. Para ambos a distância dos homens do pecado deve começar com o amor a Deus. É por isso que a verdadeira santidade não é simplesmente uma questão de modificação do comportamento. Poderíamos presumivelmente atravessar os movimentos e fazer os tipos certos de coisas e ainda não termos um coração de amor a Deus e aos outros. O amor é ambos o fundamento e a fonte de santidade autêntica, o início e a causa. Santidade não é mera obediência; A vida de santidade deve surgir diante do amor.

Em terceiro lugar, para que não pensemos que o amor santo significa alguma coisa que fazemos, Policarpo e Wesley concordariam que o amor santo produz uma vida que honra a Deus. Nós já vimos que o amor para Policarpo que está longe de todo o pecado é também o amor que cumpre toda a justiça. Da mesma forma, Wesley insiste que, "o amor é o cumprimento da lei, a finalidade do mandamento." Não é somente o "primeiro e grande mandamento", mas todos os mandamentos em um (Explanação Clara, 6). Para nenhum desses homens [Policarpo e Wesley] o amor significa ilegalidade. Ao contrário, amor significa santidade. Aqueles que amam a Deus amará a lei de Deus e guardará os Seus mandamentos. Assim, a santidade não é principalmente sobre o que fazemos; é sobre quem nós amamos. Mas, se amamos a Deus, faremos o que lhe agrada. A santidade não consiste em obediência, mas a obediência sempre acompanha santidade.

Concluirei dizendo que enquanto a inteira santificação é muitas vezes tratada como característica de Wesley, isso deve ser que os explicado que não é o caso. Os temas centrais da doutrina da santificação de Wesley estavam presentes no início da igreja e Wesley viu sua ênfase na doutrina da perfeição cristã como uma recuperação da verdade bíblica ensinada pelos apóstolos e pelos pais da igreja. Esta breve comparação de seus pontos de vista com os de Policarpo expressos em sua carta aos filipenses é parte, embora certamente não tudo, dos elementos de prova que Wesley estava certo ao ver seu trabalho como estando em continuidade com a Igreja antiga.
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O recente livro de Thomas A. Noble, Trindade Santa: Povo Santo - A teologia da perfeição cristã*  dedica um capítulo ao tema da perfeição cristã como ensinada pelos Padres gregos e latinos (Capítulo 3).

* Nota do tradutor: O livro de Thomas A. Noble Trindade Santa: Povo Santo - A teologia da perfeição cristã será publicado no Brasil ainda neste ano.

Fonte: http://www.mattoreilly.net/2013/07/entire-sanctification-in-early-church.html

sexta-feira, 5 de junho de 2015

John Wesley - "Sua experiência com o dinheiro"

John Wesley - "Sua experiência com o dinheiro"

John Wesley (1703-1791) é conhecido como um pregador que revolucionou a Inglaterra do século XVIII, foi instrumento de avivamento, e influenciou profundamente a igreja com seus ensinos sobre santificação.
Poucos talvez saibam que ele ganhou muito dinheiro com a venda de seus livros e panfletos, e que sua renda o classificava como um dos homens mais ricos da Inglaterra do seu tempo.
A seguir, alguns dos seus ensinamentos sobre dinheiro:
John Wesley viu o movimento de Metodismo que fundou crescer de dois irmãos para uma sociedade de quase um milhão de pessoas durante o período da sua vida. Porém, nos seus últimos anos, ele ficou triste e pessimista com relação ao movimento. Os seguidores não tinham mais fervor e amor pelo Senhor, o que se demonstrava de diversas maneiras, entre as quais sua indisposição de visitar e ajudar os pobres e necessitados.
Wesley temia que o Senhor não estivesse mais no meio deles, que o povo tivesse abandonado seu "primeiro amor", e que talvez seus labores de uma vida inteira fossem perdidos.
Wesley atribuiu esta frieza espiritual e afastamento de Deus principalmente ao crescimento de riquezas e possessões. Notou que o nível econômico médio dos metodistas havia melhorado mais de dez vezes em relação ao princípio do movimento. Parecia-lhe que quanto mais dinheiro tinham, menos amavam ao Senhor, menos disposição tinham, entre outras coisas, para auxiliar os necessitados.
Wesley pregava muito sobre o uso correto do dinheiro, e de como somos apenas despenseiros de Deus. O propósito de Deus em nos abençoar financeiramente é para podermos compartilhar com aqueles que não têm. Gastar em coisas supérfluas ou além do básico necessário é, por isso, roubar de Deus.
É difícil imaginar este grande pregador, que falava tanto sobre o amor, ficando irado ou expressando ódio para alguma coisa. Ele até ensinava que o amor de Deus pode encher de tal forma nosso coração que seremos capazes de amar perfeitamente a Deus e ao nosso próximo.
Mas havia uma palavra que Wesley realmente detestava. Era a palavra que as pessoas usavam para justificar gastos extravagantes ou um estilo de vida materialista. Diziam: "Mas tenho condições de comprar aquilo ou de viver assim". Para ele esta expressão "tenho condições" era vil, miserável, imbecil e diabólica, pois nada do que temos pode ser considerado nosso. Nenhum cristão verdadeiro jamais deveria usá-la.
Ele não só pregou, mas viveu este princípio na prática. Numa época em que uma pessoa podia viver tranquilamente com £30,00 (trinta libras) por ano, Wesley começou ganhando mais ou menos isto no início de sua carreira de professor da universidade.
Um dia, porém, notou uma empregada doméstica que não tinha agasalho suficiente no inverno, e que não tinha nada para lhe dar, pois já gastara todo seu dinheiro para si mesmo. Sentiu-se fortemente repreendido por Deus como mau despenseiro dos seus recursos. Daí em diante, reduziu ao máximo suas despesas para poder ter mais para distribuir.
Com o tempo, sua renda anual passou de £30,00 por ano a £90,00, depois a £120,00 e anos mais tarde chegou a £1400,00. Entretanto, nunca deixou de viver com os mesmos £30,00, e de dar embora todo o restante.
Segundo seu próprio testemunho, nunca teve mais que £100,00 no bolso ou nas suas reservas. Ensinou que quando a renda do cristão aumentasse, devia aumentar seu nível de ofertas, não seu nível de vida.
Quando morreu, deixou apenas algumas moedas nos bolsos e nas gavetas, e os livros que possuía. A grande maioria das £30.000,00 que ganhou durante sua vida (com panfletos e livros) foi doada a pobres e necessitados.
Wesley baseava sua prática em cinco pontos fundamentais:
1. Deus é a fonte de todos os recursos do cristão. Ninguém realmente ganha dinheiro por sua própria esperteza ou diligência. Pois Deus é fonte de toda energia e inteligência.
2. Os cristãos terão de prestar contas a Deus pela forma como usaram o dinheiro. Em qualquer momento, podemos ter de prestar contas a Deus. Por isto, nunca devemos desperdiçar o dinheiro agora, pensando em compensar futuramente.
3. Os cristãos são mordomos do dinheiro do Senhor. Somos apenas agentes dele para distribuí-lo de acordo com sua direção. Portanto, não temos condições de fazer algo contrário à sua vontade.
4. Deus concede dinheiro aos cristãos para que o repassem àqueles que têm necessidade. Usar este dinheiro para nós mesmos é roubar de Deus.
5. O cristão não tem mais direito de comprar algo supérfluo para si mesmo do que tem de jogar o dinheiro fora.
Com isto em mente, Wesley dava quatro conselhos quanto às prioridades de Deus para o uso da renda individual do cristão:
1. Suprir todo o necessário para si mesmo e a família (1 Tm 5.8).
2. "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes" (1 Tm 6.8).
3. "Procurai as coisas honestas, perante todos os homens" (Rm 12.17), e "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma" (Rm 13.8).
Depois de cuidar das necessidades básicas, a próxima prioridade é pagar os credores, ou providenciar para que todos os negócios sejam feitos de forma honesta, sem incorrer em dívidas.
4. "Façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé" (Gl 6.10).
Depois de prover para família, credores, e negócios, Deus espera que todo o restante lhe seja devolvido através de doar aos necessitados.
Para ajudar a discernir em situações não muito claras se está tomando a direção certa diante de Deus, Wesley sugeria que o cristão fizesse a si mesmo as seguintes perguntas em relação a algum bem que quisesse adquirir:
1. Em gastar este dinheiro, estou agindo como se eu fosse dono dele, ou como despenseiro de Deus?
2. Que Escritura me orienta a gastar dinheiro desta forma?
3. Posso oferecer esta aquisição como oferta ao Senhor?
4. Deus haverá de me elogiar na ressurreição dos justos por este dispêndio?

Extraído da Revista Impacto (www.revistaimpacto.com.br), nº 25.

PERFEIÇÃO E CRESCIMENTO por C. W. Ruth

PERFEIÇÃO E CRESCIMENTO
por C. W. Ruth
A perfeição, mencionada nas Escrituras é possível a todo cristão; é a perfeição de um coração limpo de todo o pecado e cheio de amor puro, a perfeição do amor.
O termo perfeito refere-se a qualidade e não à quantidade. Temos encontrado alguns que rejeitam a perfeição cristã, alegando eles que, havendo perfeição, há impossibilidade de crescimento e desenvolvimento na graça. Defendem os tais que, sendo perfeitos, não podem ter necessidade nem oportunidade de crescimento. Mas não esqueçamos que a perfeição cristã se refere à qualidade e não à quantidade de amor no coração. Todos os cristãos têm amor; mas todos os cristãos não têm o amor perfeito, que lança fora o temor. O que a saúde perfeita é para o corpo, o amor perfeito é para a alma. Santidade quer dizer integridade espiritual, ou saúde da alma. O pecado é uma enfermidade, uma doença que é sempre uma condição anormal, porque uma criança que não goza perfeita saúde, não é razão para não continuar a crescer. A criança com saúde perfeita crescerá muito mais rápida e proporcionalmente do que a de saúde debilitada.
Devemos sempre nos lembrar que não estamos defendendo a perfeição de ação, mas sim o amor perfeito, que se relaciona principalmente com a espécie ou qualidade. Usando a linguagem do Rev. J. A. Wood, em, "Pureza e Maturidade", insistimos: "Pode-se dizer que uma coisa é perfeita quando possui as propriedades ou qualidades que são essenciais à sua natureza. O fruto do Espírito é perfeito, perfeito em qualidade, quando existe na alma com exclusão de cada princípio oposto, de cada temperamento contrário". Como já mencionamos, o crescimento na graça, quando o coração estiver limpo de todo o pecado e aperfeiçoado em amor, será mais rápido do que seria de outra maneira. Uma das características essenciais do crescimento é o conhecimento. Nunca amaremos uma pessoa, se dela não tivermos conhecimento. Na proporção em que o nosso conhecimento aumenta, temos maior base intelectual para a ação do amor. "Consequentemente, cada manifestação do caráter de Deus, cada nova demonstração dos Seus atributos, cada desenvolvimento adicional das Suas providências, oferecerá novas ocasiões para o amor. Crescer em santidade na proporção exata em que ela cresce em conhecimento é, portanto, o privilégio de uma pessoa aperfeiçoada em amor, e, consequentemente, de uma pessoa santificada"
(Upham)
Quando o coração é limpo de todo o pecado, não pode ser purificado mais; mas pode haver um crescimento contínuo de amor num coração purificado. Não pode haver nenhum crescimento para o amor perfeito, visto que o crescimento não muda a qualidade ou natureza de alguma coisa, mas pode haver um crescimento inextinguível e ilimitado na graça, quando o amor é perfeito no coração.
Extraído: O Arauto da Santidade - 15 de julho de 1973